Os indivíduos têm o direito ao seu corpo e sexualidade, a escolher como e com quem vai vivenciá-la, a ter livre escolha sobre suas próprias vidas
Sem dúvidas, a sexualidade é um tema político. A construção da sexualidade e do corpo não está isolada no campo da subjetividade, mas se desenvolve historicamente por meio das relações de poder e dominação, capitalistas e patriarcais, que delineiam o nosso “eu” e a sua relação com o outro. O modelo dominante é baseado no controle do corpo e na imposição da heterossexualidade. Sendo assim, na construção do gênero, são definidos papéis, a partir das relações de poder, que impõem um tipo de corpo, identidade e sexualidade para os homens e outro para as mulheres.
Para as mulheres, dois papéis estão colocados em torno de sua sexualidade, centrados na subalternidade e na reprodução, fato que vai, inclusive, delimitar a forma como se relacionam com seu corpo. O primeiro reduz sua sexualidade ao prazer do outro, reproduzindo a passividade que lhe é imposta nas demais esferas da vida social. Um segundo papel é a maternidade. Ser mãe foi naturalizado como algo fundamental na vida de uma mulher, de modo que a maternidade torna-se obrigatória e deve seguir os padrões de reprodução (gestação, afetividade, cuidado e responsabilidade incondicional com a prole).
Mas e a mulher que não escolhe esses papéis previamente elaborados para ela?
Esse não é um debate contra a maternidade e sim, centrado na liberdade de escolha (com quem e como se relaciona afetivo-sexualmente e se quer ou não ter filhos). A maternidade deve ser uma decisão da mulher e não do Estado, que atualmente institucionaliza essa função social como destino das mulheres.
A luta pela legalização do aborto é uma luta por liberdade tendo em vista que, por contradizer a tradição imposta para a sexualidade das mulheres, contribui para a autonomia na decisão sobre seu corpo, saúde e vida. Apesar de ser considerado crime pela legislação brasileira, no nosso país essa é uma realidade vivenciada por uma em cada cinco mulheres. A situação de clandestinidade em que é realizado tem matado as mulheres pobres, pois são elas que, por não terem como pagar, recorrem a métodos inseguros. As complicações trazidas por essa insegurança contribuem para o aborto ser a terceira causa de morte materna no Brasil (dados do Ministério da Saúde, 2010).
Além disso, a mulher que aborta é criminalizada pelo Estado e culpabilizada pela sociedade por ter saído do seu lugar “tradicionalmente privado”. A tensão entre “privado” e “público” (sexualidade no espaço “privado” e direito ao corpo/aborto no âmbito “público”) desaparece neste momento. Os diversos sistemas de controle, institucionais ou não, relacionam-se desenvolvendo e prolongando a violência e a dominação sobre as mulheres. A criminalização do aborto reforça a subalternidade e o controle do corpo e sexualidade das mulheres nas diversas dimensões da vida social.
O Estado teria a função de garantir políticas integrais que deem reais possibilidades de escolha entre ter ou não filhos. Entretanto, as adversas condições políticas para esse debate no Brasil vêm colocando as mulheres distantes das possibilidades de decisão sobre suas próprias vidas.
Mas se o domínio sobre o corpo e sexualidade está sustentado por um sistema de poder, também é objeto de luta política, nesse caso, luta antipatriarcal/feminista. Portanto, no feminismo o debate da sexualidade passa a relacionar os princípios de autodeterminação, autonomia e controle sobre o próprio corpo. É por isso que trazemos cotidianamente a defesa da legalização do aborto para o espaço da luta política e a direta contraposição à subalternidade das mulheres, com um eixo central: os indivíduos têm o direito ao seu corpo e sexualidade, a escolher como e com quem vai vivenciá-la, a ter livre escolha sobre suas próprias vidas.
Por Larisse de Oliveira Rodrigues – militante da organização Consulta Popular no Brasil de Fato em 19/10/2012
Nota Pública do Fórum de Mulheres de Pernambuco: Por um debate franco e honesto sobre o aborto! Por uma solução que proteja e garanta a vida das mulheres!
O Fórum de Mulheres de Pernambuco vem a público repudiar a forma como parcela do poder médico e do poder constituído vem tratando a questão do aborto no nosso país, repudiar à forma como candidaturas usam este problema para promover-se entre o eleitorado.
É fato que muitas mulheres precisam recorrer ao aborto em algum momento de sua vida. Às vezes são crianças, adolescentes ou jovens que foram abusadas, violentadas e engravidaram sem desejar. Às vezes são mulheres em risco de eclâmpsia ou com gravidez de alto risco. Outras vezes, são mulheres jovens, mas já adultas, com filhos, que engravidaram por falha na contracepção ou porque maridos e parceiros se negaram a usar camisinha. Neste caso, elas precisam abortar porque não tem como aumentar sua família naquele momento.
Nestes e em todos casos, nós mulheres somos privadas do direito à informação sobre as possibilidades de aborto legal. Negam nosso acesso as informações de saúde pública para um aborto seguro. Muitas são levadas à morte, por falta de informação segura. Outras são maltratadas nos hospitais e denunciadas pelos médicos, que agindo assim cometem um crime contra seu código de ética. Às vezes a polícia as prende. E juízes as condenam.
O aborto clandestino é causa de muito sofrimento, adoecimento e até de morte entre nós mulheres. Mas políticos oportunistas se valem da condenação ao aborto para passar a imagem de que são íntegros, quando muitas vezes são corruptos ou atuam em associação a políticos ficha suja.
No Congresso Nacional, este ano, políticos da bancada religiosas se associaram aos milionários industriais para vetar o imposto sobre fortuna que iria financiar o Sistema Único de Saúde/SUS. Para nós, quem vota contra mais dinheiro para o SUS não defende a vida de ninguém.
Nas campanhas eleitorais o aborto torna-se peça de propaganda quando, para nós mulheres, é um problema grave em nossas vidas. Queríamos nunca precisar recorrer a um aborto. Mas para isso precisamos de mais informação sobre como usar os métodos seguros para evitar filhos, além de tê-los acessíveis todo o tempo nos serviços de atenção básica. Nos casos de estupro, é preciso pílula do dia seguinte, para evitar que a gravidez se instale, e assim evitar um aborto.
Nos casos de risco de morte, de saúde física e mental, é preciso aborto legal para que a gestação seja interrompida logo nas primeiras semanas, evitando gravidez forçada, abortos tardios ou nascimento e abandono de bebês.
Denunciamos a continua imposição da obrigação das mulheres manterem um gravidez indesejada e forçada. Isso é indigno, violento, além de uma ameaça à saúde e à vida de todas nós mulheres.
Nos solidarizamos com as mulheres que precisam recorrer a um aborto. E repudiamos todos e todas que as condenam. Nenhuma mulher está livre de um dia precisar abortar.
Exigimos um debate responsável, com informações verdadeiras e sem condenação moral, para que se possa verdadeiramente compreender o que se passa com as mulheres, suas famílias e filhos, o significado da dor e do sofrimento para uma mulher que se vê obrigada a manter uma gravidez forçada por negação de seus direitos, da incompreensão de sua situação, além julgamento e condenação levianas.
Nenhuma fé pode justificar tal condenação. O respeito à dignidade das mulheres é um dever de todos e todas que pretendem ser representantes do povo.
Fonte: Articulação de Mulheres Brasileiras em 28/08/2012
Ouça fala de Silvia Camurça sobre o tema: Fórum de Mulheres defende debate sobre aborto com participação da sociedade
Para orientar as mulheres sobre seus direitos sexuais e reprodutivos a entidade lançou nesta terça-feira a campanha 30 dias de mobilização pela vida (EBC em 28/08/2012)
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Eleições e Gênero em Pernambuco: o que precisa ser discutido? O que os programas de governo devem abarcar para promover a igualdade de gênero? Para representantes de várias organizações de luta pelos direitos da mulher, a resposta muitas vezes foge de propostas inovadoras. O essencial é mesmo garantir o que já determina a lei.
Desde agosto de 2006, quando a Lei Maria da Penha entrou em vigor, o combate à violência e discriminação de gênero passaram a ser responsabilidade da União, estados e municípios. À administração das cidades coube a criação de Centros de Atendimento e Orintação à Mulher, com apoio jurídico, psicológico e assistência social. “O Centro Clarice Lispector é referência na cidade, mas ainda precisamos de mais. Também espero que os futuros prefeitos de outras cidades ajudem a interiorizar o combate à violência“, diz a coordenadora do Instituto Feminista SOS Corpo, Sílvia Camurça, indo além do quadro eleitoral recifense. Ela também sugere que as políticas de defesa da mulher incluam programas de habitação que beneficiem vítimas em situação vulnerável e financeiramente dependentes de seus agressores:
Temos as secretarias da mulher, mas, por conta do orçamento, muitos projetos não têm continuidade e, sem continuidade, os projetos sociais não dão resultado
Os direitos femininos também estão discriminados na Política Nacional de Atenção à Saúde da Mulher, documento do Ministério da Saúde que ressalta a importância de ações preventivas. Para Paula Viana, integrante da Rede Feminista de Saúde, prevenção e educação sexual são fundamentais, já que podem diminuir a mortalidade por cânceres de mama e ginecológicos e abortos inseguros, além da contaminação por Aids.
“Defendemos o atendiemento pelo SUS, contra privatizações e centros financiados por instituições religiosas, que muitas vezes criam barreiras para a promoção da saúde reprodutiva“, diz Paula sobre a distribuição de contraceptivos e realização de abortos previstos por lei. Ela ainda sugere que os postos de saúde tenham horários mais flexíveis para atender às trabalhadoras.
A participação feminina no crescimento acelerado da capital e também de outras cidades do estado não ficou de fora das reivindicações. Márcia Ramos, diretora estadual da União Brasileira de Mulheres (UBM), sugere que o município ofereça cursos de capacitação voltados para o público feminino e que estejam de acordo com a demanda do mercado. Qualificação e emprego são caminhos que contribuem para a elevação da qualidade de vida das mulheres.
Mas, para que todas as reivindicações sejam atendidas, Márcia lembra que é preciso investimento.“Temos as secretarias da mulher, mas, por conta do orçamento, muitos projetos não têm continuidade e, sem continuidade, os projetos sociais não dão resultado”. Já Sílvia, do SOS Corpo, aponta a postura dos políticos diante da causa feminina como a grande dificuldade. “Uma coisa é um evento para mulheres, entrega de prêmios de reconhecimento pelo trabalho; outra é ter propostas para promover a igualdade de gênero”. Ela acredita que seria interessante para a cidade se os candidatos estudassem os resultados dos congressos feministas.
Reivindicações:
- Criminalização da homofobia
- Criação de mais Centros de Atenção e Atendimento à Mulher
- Prioridade para mulheres vítimas de violência nos programas de habitação
- Prevenção das doenças que mais atingem as mulheres
- Educação sexual e esclarecimento sobre métodos contraceptivos
- Horários mais flexiíveis nos postos de saúde
- Cursos de capacitação de acordo com a demanda do mercado
- Orçamento adequado para a Secretaria Especial da Mulher
Para essas eleições municipais, o Fórum de Mulheres, articulação feminista que inclui o SOS Corpo, Instituto Papai e o Grupo Curumim, por exemplo, decidiu não apoiar nenhuma candidatura. A atuação do grupo vai se concentrar no diálogo com alguns partidos e com a população, orientando como a política pode assegurar os direitos da mulher:
Rosângela Talib, coordenadora executiva da ONG Católicas Pelo Direito de Decidir (CDD) falou ao Centro Brasileiro de Estudos de Saúde - Cebes , no Seminário O Enfrentamento da Morte Materna na Política de Atenção Integral À Saúde da Mulher, sobre religião, descriminalização do aborto, e sobre os direitos e a saúde da mulher brasileira, que busca a redução da mortalidade materna.
Excluidos do documento final da Conferência Rio+20, estão os direitos de sexualidade e reprodução das mulheres consagrados na quarta Conferência Mundial para as Mulheres, realizada em Pequim em 1995 e junto à Plataforma de Ação, aprovada no Cairo. Ambas diretrizes internacionais estabelecem o direito das mulheres sobre sua vida reprodutiva e lhes garantem acesso a métodos de planejamento familiar.
No texto que será encaminhado aos chefes de estado nesta quarta-feira na Rio+20, substituiu-se a promoção de “direitos de sexualidade e reprodução” por “serviços de saúde” da mulher.
Para Átila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional do Brasil, a mudança significa uma redução dos direitos igualitários da mulher:
”É uma questão que abrange a participação das mulheres sobre todas as políticas que têm impacto sobre a vida delas, como garantir sua autonomia sobre decisões que afetam o próprio corpo. Na prática isso cria uma estrutura para a descriminalização do aborto, mas não necessariamente os países precisam seguir essa via”
Para Jan Egeland, diretor da executivo da Human Rights Watch:
“Os governos não estão sendo consistentes no respeito aos direitos das mulheres, e muitos grupos cederam aos apelos dos representantes do Vaticano, retirando do texto final da Rio+20 artigos que poderiam garantir o direito reprodutivo feminino”
Durante as sessões de negociação, os observadores da Santa Sé se manifestaram intensamente contra a inclusão dos direitos de sexualidade e reprodução das mulheres no texto final da Rio +20.
A resistência da igreja em apoiar a inclusão do termo que garante os direitos de sexualidade e reprodução das mulheres gira em torno da via que abre caminho para a legalização do aborto.
Roque diz que as políticas de inclusão reprodutiva e sexual das mulheres abre um leque de possibilidades que não necessariamente levam à legalização do aborto:
”São direitos que forçam o estado a desenhar políticas públicas e crie condições para que as mulheres, que representam metade da população do mundo, vivam melhor e tenham direitos humanos mais igualitários.”
A partir da matéria da Veja “Pressão da Santa Sé barra direitos reprodutivos e sexuais das mulheres na Rio +20″ em 19/06/2012
Notícias e manifestações internacionais sobre o tema:
Assault on Reproductive Rights and Gender Equality at Rio+20 (21/06/2012 – American Progress)
Gro Harlem Brundtland censures Rio+20’s gender equality outcomes (21/06/2012 – The Guardian)
Will the World Listen to Women? (IPS – 22/06/2012)
Hillary defende direitos reprodutivos da mulher em texto da Rio+20 (APF 22/06/2012)
Diretora da ONU destaca retrocesso em acordos já firmados (Folha de S. Paulo em 21/06/2012 via Agência Patrícia Galvão)
‘Que sabem celibatários sobre as mulheres?’, diz Mary Robinson (O Globo em 20/06/2012)
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