“Acho que a mãe, a gestora, aquela que está ali com a criança na barriga, deve ter a palavra final sempre, porque só ela deveria ser a pessoa a decidir o que vai acontecer: O corpo é dela, a gravidez é dela, acontece dentro dela, vai mudar a vida dela”, opinou a atriz Carolina Dieckmann sobre o aborto. (Fonte: Virgula em 11.12.2012)
“Acho uma grande ignorância o aborto não ser legalizado. Nunca tive de fazer um aborto, mas acredito que um filho que a mulher não tenha vontade de ter não pode vir ao mundo. Temos de ter o direito da escolha”. afirmou a atriz Giovanna Antonelli (Fonte: Marie Claire em 26.10.2012)
Mais informações através do link:
Carolina Dieckmann confessa ser a favor do aborto e que não se importa com a fama de antipática (Hoje em Dia em 11.12.2012)
Publicado no Blogueiras Feministas em 01/11/2012:
Toda semana recebemos emails de mulheres desesperadas que nos procuram pedindo ajuda para realizar um aborto. Infelizmente, nada podemos fazer. Por ser crime, não temos como indicar locais e nem procedimentos seguros. Porque qualquer procedimento abortivo, que não esteja previsto em lei, é clandestino e mulheres ainda são presas por isso, podemos inclusive ser acusadas de cumplicidade.
O sentimento de estar grávida sem desejar, sem querer ver o feto se formar é devastador. Por isso, publicamos hoje o relato de H., mulher de 35 anos que conseguiu realizar um aborto clandestino. Por razões óbvias não podemos identificá-la, mas seu desabafo é também o desejo de que outras pessoas não tenham que passar pelo pesadelo de uma gravidez indesejada.
Texto de H.
O senso comum diz, entre outras coisas, que o sonho de toda mulher é ser mãe, que só nos tornamos completas quando temos filhos, que o relógio biológico sempre fala mais alto. Será? Minha reação ao ver o médico me mostrando o feto na tela durante uma ecografia e ao ouvir o coração dele batendo foi: “puta que pariu, isso não é possível!”. O médico me dando parabéns e eu sentindo como se estivesse recebendo pêsames.
O senso comum também diz, entre outras coisas, que quem engravida é porque quis, porque não tomou cuidado. Mesmo? Perdi a virgindade há 20 anos, já transei com mais de 60 homens, nunca peguei nenhuma DST e, até agora, nunca havia engravidado. Será que sou uma sortuda ou alguém que sempre se cuidou e se preservou? Acho que ter sempre preservativos na bolsa, mesmo fazendo uso de anticoncepcionais, não pode ser classificado como descuido. Ou pode?
Porém, um dia você descobre 3 miomas no útero e precisa retirar o DIU. Um dia, em uma transa, a camisinha estoura e você, por precaução, apela para a pílula do dia seguinte. Um mês depois, você recebe a notícia de que está grávida. O sonho de toda mulher, principalmente daquelas que teriam, como você, maior dificuldade para engravidar. Para mim, o início de um pesadelo, o início do desespero.
Nunca sabemos como reagiremos a uma situação até que estejamos nela. Sempre fui a favor do direito de escolha, mas até este mês eu não sabia como seria minha reação. E, se antes eu já achava nossa legislação injusta com as mulheres, hoje a classifico como bovina! Que legislação é essa que me proíbe de fazer o que eu julgar melhor para mim e que me leva a situações de risco? Quantas mulheres por aí se dão mal por causa de nossa legislação estúpida?
Eu, no desespero e sem encontrar uma clínica, comprei remédios abortivos pela internet. Não funcionaram. Sentimento de maternidade é isso. É o não pertencimento. É não querer um corpo estranho dentro de si. É ficar triste porque o sangramento não era nada e a ida à emergência do hospital resultou apenas em saber que aquele corpo estranho está vivo e bem. É perguntar-se: “Por que esse negócio não morre logo?!” Gastei R$ 738 em comprimidos, para ouvir “parabéns” de um médico durante uma ecografia e ter a sensação de estar em um enterro. Não estou bem financeiramente, não podia ter gasto esse dinheiro, saí do consultório chorando muito, mais desesperada ainda. Alguns dias depois, consegui comprar Cytotec – dessa vez verdadeiro.
Gastei R$ 500 com 4 comprimidos que me deram a pior experiência, em termos de dor, que já tive na vida. Não recomendo a ninguém que não esteja, como eu estava, desesperada. A pior cólica que eu já havia tido até então não se compara: passei um dia inteiro sentindo tanta dor que, às vezes, a sensação era de que eu ia desmaiar! No dia seguinte, ainda sentindo muita dor, fui ao hospital. Precisei tomar soro e medicação para dor direto na veia, fizeram exames de sangue… O alívio não veio com a interrupção da dor e nem com os resultados normais dos exames: outra ecografia e dessa vez o médico me deu a notícia em tom de pêsames, mas minha sensação foi a de estar ouvindo “parabéns, você não está mais grávida”.
Eu não sabia e, para quem, como eu, também não sabe, o aborto não termina aí, a dor física não termina aí. Por sorte, não tive hemorragia forte, não precisei de curetagem, não fiquei hospitalizada. No entanto, para terminar de limpar o útero precisei tomar um remédio (medicação pós-aborto) durante 3 dias. Foram 3 dias sentindo vontade de vomitar, tendo cólicas fortíssimas, sem conseguir nem andar direito, chorando quando a dor voltava.
Fui ao inferno e voltei e, durante minha estada por lá, não me questionei em nenhum momento sobre o que fiz. Faria novamente. Não tenho nenhuma culpa, não tenho nenhuma dúvida. Minto. Tenho dúvidas sim. Me arrisquei, não tive escolha a não ser me arriscar – e não, para mim ser mãe não é uma opção, não é uma escolha, não quero, nunca quis. Porém, bem ou mal, tive $ pra comprar Cytotec, tenho plano de saúde e pude recorrer a atendimento médico… E as mulheres que não têm acesso a nada disso? Será que se algum homem tivesse que passar por isso, nossa legislação seria como é? Se a sua filha tivesse que passar por isso, você continuaria defendendo o direito de um embrião em vez de defender o direito dela?
Assassina. Monstra. Pecadores são rápidos em julgar o pecado alheio. Também já o fui. Percebi que o julgamento é inútil quando se trata da vida alheia – quem sou eu para julgar alguém a partir dos meus valores, das minhas crenças? Do que servem minhas experiências para a vida de alguém que não sou eu? Você quer ter um filho, eu queria fazer um aborto. Talvez amanhã eu queira muito ter um filho e você queira apenas se livrar de uma gravidez indesejada. Você sabe o dia de amanhã? Algum de nós sabe?
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Para saber mais sobre aborto em casos legais no Brasil:
[+] Aspectos éticos do atendimento ao aborto legal (.pdf) – documento formulado pelo Instituto Anis.
[+] Atenção humanizada ao abortamento (.pdf) – norma técnica do Ministério da Saúde.
[+] Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes (.pdf) – norma técnica do Ministério da Saúde.
[+] Aspectos jurídicos do atendimento às vítimas de violência sexual – perguntas e respostas para profissionais de saúde.
Os indivíduos têm o direito ao seu corpo e sexualidade, a escolher como e com quem vai vivenciá-la, a ter livre escolha sobre suas próprias vidas
Sem dúvidas, a sexualidade é um tema político. A construção da sexualidade e do corpo não está isolada no campo da subjetividade, mas se desenvolve historicamente por meio das relações de poder e dominação, capitalistas e patriarcais, que delineiam o nosso “eu” e a sua relação com o outro. O modelo dominante é baseado no controle do corpo e na imposição da heterossexualidade. Sendo assim, na construção do gênero, são definidos papéis, a partir das relações de poder, que impõem um tipo de corpo, identidade e sexualidade para os homens e outro para as mulheres.
Para as mulheres, dois papéis estão colocados em torno de sua sexualidade, centrados na subalternidade e na reprodução, fato que vai, inclusive, delimitar a forma como se relacionam com seu corpo. O primeiro reduz sua sexualidade ao prazer do outro, reproduzindo a passividade que lhe é imposta nas demais esferas da vida social. Um segundo papel é a maternidade. Ser mãe foi naturalizado como algo fundamental na vida de uma mulher, de modo que a maternidade torna-se obrigatória e deve seguir os padrões de reprodução (gestação, afetividade, cuidado e responsabilidade incondicional com a prole).
Mas e a mulher que não escolhe esses papéis previamente elaborados para ela?
Esse não é um debate contra a maternidade e sim, centrado na liberdade de escolha (com quem e como se relaciona afetivo-sexualmente e se quer ou não ter filhos). A maternidade deve ser uma decisão da mulher e não do Estado, que atualmente institucionaliza essa função social como destino das mulheres.
A luta pela legalização do aborto é uma luta por liberdade tendo em vista que, por contradizer a tradição imposta para a sexualidade das mulheres, contribui para a autonomia na decisão sobre seu corpo, saúde e vida. Apesar de ser considerado crime pela legislação brasileira, no nosso país essa é uma realidade vivenciada por uma em cada cinco mulheres. A situação de clandestinidade em que é realizado tem matado as mulheres pobres, pois são elas que, por não terem como pagar, recorrem a métodos inseguros. As complicações trazidas por essa insegurança contribuem para o aborto ser a terceira causa de morte materna no Brasil (dados do Ministério da Saúde, 2010).
Além disso, a mulher que aborta é criminalizada pelo Estado e culpabilizada pela sociedade por ter saído do seu lugar “tradicionalmente privado”. A tensão entre “privado” e “público” (sexualidade no espaço “privado” e direito ao corpo/aborto no âmbito “público”) desaparece neste momento. Os diversos sistemas de controle, institucionais ou não, relacionam-se desenvolvendo e prolongando a violência e a dominação sobre as mulheres. A criminalização do aborto reforça a subalternidade e o controle do corpo e sexualidade das mulheres nas diversas dimensões da vida social.
O Estado teria a função de garantir políticas integrais que deem reais possibilidades de escolha entre ter ou não filhos. Entretanto, as adversas condições políticas para esse debate no Brasil vêm colocando as mulheres distantes das possibilidades de decisão sobre suas próprias vidas.
Mas se o domínio sobre o corpo e sexualidade está sustentado por um sistema de poder, também é objeto de luta política, nesse caso, luta antipatriarcal/feminista. Portanto, no feminismo o debate da sexualidade passa a relacionar os princípios de autodeterminação, autonomia e controle sobre o próprio corpo. É por isso que trazemos cotidianamente a defesa da legalização do aborto para o espaço da luta política e a direta contraposição à subalternidade das mulheres, com um eixo central: os indivíduos têm o direito ao seu corpo e sexualidade, a escolher como e com quem vai vivenciá-la, a ter livre escolha sobre suas próprias vidas.
Por Larisse de Oliveira Rodrigues – militante da organização Consulta Popular no Brasil de Fato em 19/10/2012
Vídeo do Guttmacher Institute. Para mais informações, consulte:
http://www.guttmacher.org/pubs/fb_IAW_sp.pdf (PDF)
Em estudo americano, mulheres puderam optar pelo método contraceptivo que quisessem, como DIU, implantes, pílulas e adesivos
Oferecer métodos contraceptivos de forma gratuita a mulheres com maior risco de ter uma gravidez indesejada diminui as taxas de aborto de forma significativa, concluiu uma nova pesquisa feita nos Estados Unidos. Entre as participantes desse estudo, que passaram a fazer uso de algum anticoncepcional escolhido por cada uma, a taxa de aborto em um período de dois anos foi quase 80% menor em relação à média nacional. Esses resultados foram publicados nesta semana no periódico Obstetrics & Gynecology.
Segundo os autores do estudo, quase metade das gestações nos Estados Unidos não é planejada — 50% delas ocorrem pelo não uso de algum contraceptivo e os outros 50%, pelo uso errado ou irregular do método. “Gravidez indesejada continua a ser um grave problema de saúde no país, tendo maiores proporções entre as adolescentes e mulheres com menores níveis econômico e de escolaridade”, diz Jeff Peipert, coordenador da pesquisa.
O estudo, desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis, selecionou 9.256 mulheres de 14 a 45 anos que apresentavam maior risco de ter uma gravidez indesejada — ou seja, não faziam uso de nenhum anticoncepcional, tinham vida sexual ativa e não queriam engravidar.
As participantes receberam informações sobre como funciona cada tipo de anticoncepcional e puderam optar pelo método contraceptivo de sua preferência. A maioria optou pelos métodos de longa duração, como o dispositivo intra-uterino (DIU) ou os implantes, mas elas também tinham a escolha de fazer o uso de outros métodos, como pílulas, adesivos ou anéis vaginais.
Redução — Em um período de dois anos, a taxa de aborto entre as participantes oscilou entre 4,4 e 7,5 casos por 1.000 mulheres — uma taxa de 62% a 78% menor em comparação com o número de aborto registrado nos Estados Unidos no mesmo período, que foi de 19,6 procedimentos para cada 1.000 mulheres.
Quando os autores olharam apenas para a taxa de aborto entre as meninas de 15 a 19 anos de idade, eles descobriram que a redução do procedimento foi ainda maior. Entre as participantes do estudo dessa faixa-etária, a incidência de aborto foi de 6,3 para cada 1.000 adolescentes — 82% menor do que a média nacional para esse grupo.
“Os resultados desse estudo demonstram que é possível reduzir a taxa de gravidez indesejada e, consequentemente, de abortos no país. Acreditamos que a melhoria do acesso ao controle de natalidade, particularmente ao DIU e a implantes, e a educação sobre os métodos mais eficazes, têm potencial para que esse objetivo seja alcançado”, diz Peipert.
Fonte: Veja em 05/10/2012


